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Campeão do mundo não viu Batatais apanhar
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Roberto Salim

A estância turística de Batatais amanheceu na expectativa de fazer história no esporte. O time da cidade ia jogar contra o Paulista, em Jundiaí, pela semifinal da Copa São Paulo. E olha que, embora tenha apenas 60 mil habitantes, o lugar tem orgulho de seus três jogadores de seleção brasileira, que estiveram em Copas do Mundo. Os batataenses acreditavam que seus jovens craques lembrariam os grandes nomes do passado: o atacante Zeca Lopes e o goleiro Batatais (que estiveram na Copa da França em 1938) e o zagueiro Baldocchi, da seleção tricampeã do mundo no México.

''Que horas vai ser o jogo?'', perguntou Baldocchi, por volta de meio-dia deste domingo, quando liguei para sua casa. Ele não sabia que a partida já tinha sido disputada.

''Para nós, o fato de ter chegado até a semifinal já foi um grande resultado'', foi dizendo Baldocchi, que começou na base do time de Batatais e em 1967 já brilhava na zaga do Palmeiras. ''Batatais é uma cidade pequena e a equipe que está na Copa São Paulo foi catada nas cidades vizinhas. Um de cada lugar. Não temos estrutura para a equipe juvenil''.

E logo ele comparou sua cidade com a enorme e vizinha Ribeirão Preto.

''Lá eles tem 600 mil habitantes, somos quase um bairro deles, e o Botafogo e o Comercial foram eliminados. Então a campanha já foi boa. E quer saber, nós temos história no futebol aqui na cidade, que tem a imigração italiana muito forte. Eu mesmo sou neto de avó e avô italianos, que vieram para cá com 15 anos''.

Conversa boa de Baldocchi e sua cidade tem até festa de San Genaro.

''Nós tivemos dois jogadores daqui na Copa da França, em 1938: o Zeca Lopes, que foi campeão no Corinthians e o goleiro Batatais, que foi super-campeão no Fluminense''.

Zeca Lopes começou a carreira no então Batataes Foot Ball Club e era conhecido como El Tanque.

Nessa época do Zeca Lopes, o Batataes jogou cerca de 100 partidas na região e quase não perdeu – fala-se em apenas 3 derrotas. Por isso se transformou no ''Fantasma da Mogiana''.

Já o goleiro Batatais se chamava Algisto Lorenzato, chegou a jogar na Portuguesa, no Palestra Itália, mas teve seu auge no Fluminense, onde atuou em 309 partidas — numa delas, em 1941, foi o herói da conquista do bicampeonato carioca contra o Flamengo, no histórico Fla x Flu da Lagoa.

''É… nossa terra tem história… Mas e o jogo da Copa São Paulo contra o Paulista vai ser que horas?''

Espere um pouco Baldocchi,

''Eu joguei na base aqui do Batatais, mas no meu tempo não tinha a Copinha. E quando cheguei no Palmeiras joguei 231 partidas, com 130 vitórias. A gente admirava o Santos, mas o Palmeiras era o único time da época que jogava de igual para igual contra eles. E eu acabei convocado pelo João Saldanha para a seleção de 1970″.

Quando Saldanha deixou a seleção, substituído por Zagallo, o zagueiro pensou que seria cortado.

Que não iria ao México.

''O Leônidas, que era do Botafogo, também estava entre os zagueiros convocados. Era jogador conhecido do Zagallo e o técnico nem me conhecia direito''.

Mas Baldocchi acabou viajando para o México depois de uma semana decisiva, em que teve de esconder uma contusão, ser tratado pelo mágico massagista Mário Américo e fazer o treino decisivo com muita dor.

''O Mário Américo me avisou: se você não treinar, vão te cortar. E eu entrei no campo sem poder mancar, com lágrima nos olhos e com toda a disposição possível. Meu amigo… como a gente dizia: o treino não era ''arroz doce'' e eu fui chutando tudo. Teve uma hora que os atacantes falaram: ''Isso é só um treino Baldocchi''. E eu respondi: ''é treino para vocês, para mim é jogo decisivo, final de campeonato''.

E Baldocchi foi para a Copa, recebeu a camisa número 14 e voltou campeão do mundo.

Na volta do tricampeonato foi negociado com o Corinthians. Jogou 146 partidas no alvinegro, mas brigou com o presidente Vicente Matheus, conseguiu o passe na justiça esportiva, foi para o Fortaleza, quebrou o pé e encerrou a carreira aos 29 anos.

''Quando começa o jogo da Copa São Paulo?''

Calma Baldocchi!

O zagueirão virou fazendeiro.

Tem negócios agrícolas em Batatais.

''Eu olhava cana e o gado. Agora olho só pros meus três netos''.

É isso!

O jogo Baldocchi, já foi…

''Já jogou? Batatais perdeu ou ganhou? Fala…''

O time começou bem, dominou o primeiro tempo, mas perdeu os 45 minutos iniciais por 1 a 0.

''E?…''

Aí no começo do segundo tempo tomou o segundo gol, o terceiro, o quarto.

''Degringolou?''

Mas não jogou mal não. Diminuiu de pênalti com o artilheiro Douglas Pote, mas ainda levou o quinto.

''Foi 5 a 1?''

Foi.

''Mas ainda assim fizeram história, recolocaram o nome da cidade no mapa do esporte''.


A tarde em que Arrarraquarra parrou
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Roberto Salim

Arquivo Ferroviária - Jacqueline Myrna

Museu da Ferroviária – Jacqueline Myrna, francesinha boa de bola!

Há 50 anos, a fortíssima equipe da Ferroviária fez uma campanha inacreditável no Campeonato Paulista. Foi a melhor colocada dos times do interior. Era o ano de 1967 e na televisão brasileira uma romena – criada em Paris – fazia sucesso. Seu nome: Jacqueline Myrna. O ponto alto da Praça da Alegria, na TV Record, acontecia quando pediam para ela dizer o nome da cidade e ela toda dengosa mandava: “Arr-rrra-rrra-quar-rrrra”.

“Ela foi uma das primeiras sex-simbols da TV brasileira e por falar o nome de nossa cidade, cheio de erres e com graça, virou atração também aqui na nossa região”, conta o jornalista Alessandro Bocchi, historiador da Ferroviária, que já está escrevendo um livro sobre a história da equipe da Fonte Luminosa. “E um dos capítulos será sobre Jacqueline Myrna”.

Sem dúvida!

Arquivo Ferroviária - A caminho da Fonte Luminosa com Bazani, Maritaca e companhia.

Museu da Ferroviária – A caminho da Fonte Luminosa com Bazani, Maritaca e companhia.

Porque no dia 21 de janeiro de 1968 – exatamente há 49 anos atrás – o presidente da Ferroviária, aproveitando o cartaz da “francesinha” a convidou para um giro pela região, onde ela ganhou a chave da cidade, foi de ônibus com os craques até o estádio e ainda deu o pontapé inicial na partida contra o São Paulo, vencida pela Ferroviária por 3 a 2.

“Foi o jogo da entrega das faixas de campeão do interior”.

Diz a lenda, que nos vestiários, os jogadores nem prestaram atenção na preleção do técnico Diede Lameiro. Estavam em êxtase…

As fotos deste dia de festa podem ser vistas no Museu do Futebol e Esportes de Araraquara, bem ao lado do campo, que hoje virou uma elegante arena.

Estas fotografias são do grande dia.

Arquivo Ferroviária - A atriz com a chave de Arrarraquarra.

Museu da Ferroviária – A atriz com a chave da cidade.

“Acontece que um mistério cercou posteriormente a carreira da artista, que fez filmes e novelas… Ela sumiu”, conta Bocchi.

Ela foi fazer uma gravação nos Estados Unidos, casou e foi embora do Brasil.

“Ficamos sem a nossa querida Arr-rra—quaar-rra”.

Um dia o jornalista Marcelo Duarte foi atrás da história. Descobriu Jacqueline, agora Jackie Mitler, e família em terras americanas.

A descoberta animou Bocchi, que também fez contato com Jacqueline.

Arquivo pessoal - Jackie Mitler

Arquivo pessoal – Jackie Mitler: ''Eu inventei Arrarraquarra!''

Recebeu fotos no Natal passado. Trocou correspondência.

''Eu inventei o bordão Arrrarrraquarra, no intervalo dos programas. E como todo mundo riu, pediram para eu repetir ao vivo'', contou Jackie Mitler para o jornalista.

E Alessandro Bocchi já está escrevendo seu livro com histórias de Bazani, Fogueira, Dudu, Maritaca, Peixinho e muito mais gente boa de bola.

“Claro que teremos a Jacqueline Myrna na história”.

Se tudo der certo, o livro será lançado em janeiro de 2018, justamente no 50.a aniversário do dia em que “Arrarraquarra parrou”.

Quem sabe a “francesinha” venha para a noite de autógrafos.

 


Basquete: um BBB na vida de Kelly
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Roberto Salim

A vida tem cada uma!

Depois de quinze anos de ter namorado Daniel, a pivô Kelly recebeu uma mensagem no fim da tarde de quinta-feira. Era de uma amiga sua, querendo saber se poderia passar seu telefone para a produção do programa Big Brother. Na hora, a jogadora da Uninassau não entendeu direito, ainda mais que estava concentrada e logo teria um jogo importante contra o Corinthians, pela Liga Nacional de Basquete.

O recado:

''Kelly, acabei de receber uma ligação da Globo do Rio, pedindo seu contato. Perguntei o motivo e disseram que é porque começaram a divulgação do Big Brother e um dos participantes disse já ter namorado contigo. Não passei seu número, pois queria pedir sua permissão antes! Então, se puder me avisa!''.

Antes de dar qualquer resposta, a pivô da seleção brasileira e da equipe pernambucana já foi cercada pelas colegas de time, na concentração em Recife.

''E foi uma gozação, as meninas tiraram o maior sarro'', disse a jogadora. ''Eu não vou para o Big Brother, mas até parece que sim, de tanta gente que está me telefonando''.

Já o pessoal da Globo ainda não tinha ligado para ela até a hora da partida da noite de quinta-feira.

''Ninguém me ligou. E eu não tenho muito a dizer. Não tenho contato e nem notícias dele há quase quinze anos. E estou muito bem casada há dez anos''.

Na quadra, também deu tudo certo contra as corintianas, que estavam invictas na competição.

''O jogo foi muito bom na defesa, mas podemos ainda  melhorar muito no ataque. Batemos o time invicto do torneio. O Corinthians é uma grande equipe e a vitória nos faz acreditar que trabalhando podemos chegar sim ao título''.

Após participar de 32 minutos da partida, pegar 12 rebotes e ajudar sua equipe na vitória por 61 a 53, Kelly desejou que seu antigo namorado tenha sucesso.

''De coração fiquei feliz por ele… Ele sempre quis participar do BBB e ser famoso''.

Enquanto isso, a pivô de quatro olimpíadas, que marcou oito pontos na quebra da invencibilidade corintiana, segue firme na luta pelos rebotes e por mais um título.

E só para completar: Kelly é a única medalhista olímpica do basquete brasileiro que segue disputando a Liga Nacional.


Handebol: pai de Haniel manda arriscar até o olho
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Roberto Salim

O time de handebol do Brasil tem jogado boas partidas no Campeonato Mundial, que está sendo disputado na França. Contra a Rússia, o artilheiro Haniel fez uma jogada incrível e poderia ter feito 13 a 11 no placar, mas tentou um lance de efeito, uma rosca, e então o goleiro Kireev cresceu e fez a defesa. Logo os russos empatavam 12 a 12. Claro que o Brasil não perdeu a partida por causa deste lance desperdiçado, mas cinco horas depois do jogo eu liguei para o pai do jovem craque nacional, para ver o que ele achava daquele momento da partida.

E vocês sabem o que o professor Alessandro Langaro me respondeu?

''Você acha que eu iria dar bronca no meu filho por causa da ''rosca''? Não… jogador bom tem mais é que fazer jogada de craque… O jogador bom tem que arriscar sempre… se bobear, deve arriscar até o olho''.

Fiquei pensando bem…

O professor Alessandro tem razão.

Ainda mais que ele foi também jogador de handebol, chegou a ser vice-campeão nacional e teve convocação para a seleção brasileira. Seus filhos seguem seus passos: Haniel aos 21 anos é um fenômeno do esporte e já joga na Espanha. O filho mais novo, o Davi, vai estrear por esses dias na equipe do Pinheiros.

''O que tem acontecido com a seleção no mundial é que nosso time é muito novo. Era o segundo mais novo e agora, com a saída do Petrus, é a equipe mais jovem. Temos jogadores de 17 anos no grupo. Falta ainda um comando dentro da quadra'', explica o professor de educação física, que foi o primeiro treinador de seu filho e que mora na pequena Iporã, cidade de 15 mil habitantes no Paraná.

Na Espanha, Haniel joga como atacante, na posição de lateral esquerdo. Defende o Naturhouse Logroño e disputa a Liga Espanhola e a Champions League.

''Lá, na Espanha ele só é aproveitado no ataque, usa mais sua característica de finalização. Então num jogo como esse contra os russos ele não consegue manter o rendimento físico o tempo todo. Ataca, tenta marcar… no fim, faltou perna para o time todo''.

Além disso, Haniel foi marcado com muito ''carinho'' pelos russos, hein seu Alessandro?

''Ele estava jogando bem, marcando os gols e os caras tentaram intimidá-lo… mas isso é bom para ele aprender cada vez mais ''.

O jogo acabou 28 a 24 para os russos.

No fim da partida enviei algumas perguntas para o Haniel.

Quanto ao gol de rosca, perdido, perguntei se repetiria o lance de novo. Vejam sua resposta.

''Sem dúvida que tentaria outra vez, se tivesse outra oportunidade eu iria repetir o lance sem me omitir. Acho que todo atleta está sujeito a errar, ainda mais no nível em que jogamos''.

Sobre as pancadas que recebeu…

''Isso é coisa de jogo. Não foi a primeira vez, nem será a última. Também já joguei contra ele na Champions, já estamos acostumados um com o outro, Mas acho que ele não gosta muito de mim. Ahahaha…''

O mundial ainda não terminou para o Brasil.

''O primeiro objetivo foi alcançado, que era o acesso às oitavas. Agora é descansar o máximo possível, corrigir o que estamos errando e entrar para fazer história seja com quem for''.

Sábado tem jogo em Montpellier.

E papai Alessandro estará torcendo em Iporã.


Eric, o fenômeno de US 1 milhão, não pode jogar bola
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Roberto Salim

Imagine um menino bom de bola, que bate com os dois pés e tem o instinto do artilheiro. É o Eric Eiji Taniguchi Pardinho. Agora imagine esse craque sendo proibido aos 16 anos de jogar futebol. Pense na situação da criança, que é um fenômeno do esporte – um jovem cujo passe é cotado a mais de um milhão de dólares.  O que será que passa pela cabeça de Eric, que é filho de uma ex-jogadora de vôlei e de um velocista?

Sabe o que passa?

Passa que ele quer se transformar num dos maiores jogadores de beisebol da história…

Que vai ser um astro da Major League…

''Eu proibi meu filho de jogar futebol porque ele não pode mais correr qualquer risco de contusão, ele é um talento reconhecido no mundo todo, menos aqui no Brasil… pode?'' — perguntava nesta terça-feira o representante comercial Evandro Pardinho, pai da fera, que tinha acabado de deixar o filho no Centro de Treinamento de Ibiúna e se dirigia para Bastos, sua terra natal, no interior de São Paulo.

A família Pardinho acabou de voltar de uma viagem de negócios aos Estados Unidos.

Sim, negócios, porque a partir de  julho, quando completar 16 anos e meio, o menino terá como destino uma das fortes equipes norte-americanas de beisebol.

''Há sete propostas já feitas e o contrato será assinado, com certeza, por mais de um milhão de dólares'', conta o pai orgulhoso, que queria que seu filho fosse judoca e até o colocou na legendária academia de sua cidade, comandada pelo Mestre Makakeba.

''Mas um dia, na praia, jogando frescobol… e ele ainda era muito pequeno… tinha 6 anos…  um tio dele me disse: seu filho tem uma mecânica perfeita para arremessar… e quando voltamos à nossa cidade, ele foi direto para a escolinha de beisebol do Tio Arthur Asanone''.

Bastos é famosa pela colônia japonesa, daí judô e beisebol serem modalidades muito praticadas pelas crianças.

''O Eric também jogava bola muito bem, era um artilheiro. Enfim, ele tem facilidade para qualquer esporte, mas parece que nasceu para o beisebol mesmo e então foi evoluindo''.

Foi para as categorias de base da seleção nacional até que no ano passado, em Nova York aconteceu a consagração mundial. O grande lance que o projetou para o mundo do esporte.

''Ele arremessou a bola à velocidade de 94 milhas… e deixou todo mundo de boca aberta''.

Então começaram a chegar as propostas. As entrevistas. As reportagens nos Estados Unidos.

''Ele é um arremessador nato… a mecânica do movimento é quase perfeita. É um dom; Já analisaram os movimentos dele e são corretos, tudo sincronizado e ele não é tão alto, mede 1,76 m de altura''.

O menino não foi ainda embora porque pelas leis do beisebol profissional só pode ser contratado com os tais 16 anos e meio. Então continuou treinando no CT de Ibiúna (academia mais que especializada no esporte)  e defendendo o time do Blue Jays, pelo qual vai jogar no próximo dia 28, em São Paulo mesmo.

''Vai seguir nessa rotina até julho. Aí então vai para os Estados Unidos'', conta o pai que ainda não sabe se vai mudar junto com o filho e sua esposa Rosa.

''Nestes 11 dias que passamos agora nos Estados Unidos, ele participou de um torneio na Flórida, onde foi muito bem e mandou um arremesso a 93 milhas de velocidade, o que espantou todo mundo por lá… afinal, um arremesso é considerado fantástico nessa idade quando chega perto das 90 milhas''.

Depois, Eric  esteve no Arizona, onde conheceu alguns locais de treinamento e fez alguns arremessos para mostrar sua qualidade e a dinâmica de seus movimentos.

''Aqui no Brasil, ele já arremessou a 95 milhas. Essas façanhas agora nos Estados Unidos tiveram uma grande repercussão e ele apareceu em reportagens nas emissoras norte-americanas, apareceu no Japão e até na China… Ele é considerado o maior jogador do mundo na idade dele. Só no Brasil é que não sabem disso. Nem sabem que ele existe''.

Por enquanto Evandro… por enquanto!


Educação esportiva evitaria mortes em Alcaçuz?
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Roberto Salim

No Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, o técnico Raff Giglio tira jovens dos descaminhos da vida e forma pugilistas e cidadãos. No Complexo da Maré, também em território carioca, o ex-lutador Gibizinho conduz um projeto, também de boxe, na tentativa de resgatar a criançada. Em Abreu e Lima, pertinho de Recife, o professor Roberto Andrade tenta com o atletismo tirar as crianças das drogas e da prostituição. Será que o esporte pode ser um instrumento na luta contra a praga que leva nossos jovens para o mundo do crime? A mais nova barbárie do sistema prisional brasileiro está acontecendo no Presídio de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte. Por isso conversei sobre o tema com o professor José Figueiredo, técnico de alto rendimento de atletismo, que é também professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e trabalha diariamente com a juventude em seu Estado.

''Não me arrisco a dizer que a educação esportiva em si poderia combater a iniciação no crime, mas seria sim um dos instrumentos a ser utilizado com a juventude'', comentou Figueiredo, que além de professor de Educação Física, é o coordenador de um projeto de atletismo para crianças, dentro da UFRN. Casado com a atleta olímpica Magnólia Figueiredo, ele disse que não se conforma com a selvageria que tomou conta do presídio potiguar. ''É uma coisa de louco. Briga de gangues, um pavilhão invade o outro, com facões… coisa de bárbaros''.

Como o esporte ajudaria, sendo levado de verdade à juventude  com responsabilidade dentro dos cursos de Educação Física?

''O esporte tem valores legais. Valores que te acompanham por toda a vida. Esporte é mais que correr, que jogar, que nadar. Esporte é viver. Agrega valores, respeito e garra. Existe o companheirismo. Você perde e ganha e existem regras. Você compete pelo que você quer, mas obedecendo as normas''.

O professor universitário lembra que os países onde o índice de desenvolvimento e qualidade de vida são de bom nível, geralmente tem o esporte como algo importante desde a infância. Não somente na formação de atletas para o alto rendimento.

''Talvez seja apenas uma coincidência, mas a verdade é que nesses lugares a educação física ocupa um espaço importante e o esporte é visto de outra maneira''.

Figueiredo diz que não há estudos que comprovem essa relação, mas é obvio que quem pratica esporte tem a tendência a possuir um condicionamento mais saudável e uma outra postura diante dos desafios do dia-a-dia.

''O que quero dizer é que o esporte deveria ser usado nessa luta desde a infância. Não diria que seria decisivo no combate à criminalidade ou à delinquência juvenil, mas poderia ser um caminho. Poderia ajudar a impedir a entrada nessa trilha…''

Claro que há exceções e o próprio técnico e professor admite.

''O normal é que exista um ambiente de respeito dentro do esporte. Uma certa hierarquia, sempre que bem conduzido. Mas é claro que não é sempre assim. Mesmo porque há atletas que se tornam assassinos. E aí já é uma outra questão''.


Futebol feminino: o desprezo de sempre
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Roberto Salim

A CBF divulgou a lista dos clubes com direito à disputa do Campeonato Brasileiro Feminino de 2017. Lá estavam, além de Corinthians, Santos, Flamengo, mais dois time grandes da capital paulista: o Palmeiras e o São Paulo. E as meninas do futebol ficaram cheias de orgulho. Finalmente um torneio nacional seria disputado por várias equipes de torcida, de camisa, de tradição.

E eu fiquei pensando: já imaginou um Palmeiras e São Paulo dentro da Arena alviverde, numa preliminar do time masculino? E um São Paulo no Morumbi, relembrando os bons tempos de Telê Santana, jogando contra o Corinthians? Sim, porque quando  o Mestre era técnico do tricolor, a torcida chegou a pedir que ele trouxesse Sissi para o time masculino – tal o futebol apresentado pela meia-esquerda que era um primor de futebolista.

Aí eu delirei de vez e acreditei que o Santos Futebol Clube conseguiria contratar Marta. A fantástica Marta. Tarefa difícil, pois há proposta de renovação para ela e ainda a possibilidade do Real Madrid entrar na parada.

Pois desse devaneio todo, estava sobrando apenas a remota possibilidade de Marta jogar com a camisa alvinegra. Mas apareceu um outro fato: a craque brasileira está obtendo cidadania sueca. Os dirigentes santistas deduziram que ela não virá mesmo!

Aí, quase todo o resto se diluiu…

O Palmeiras não quis jogar. Declinou educadamente do convite. Só será obrigado a participar a partir de 2019 e assim mesmo se estiver disputando alguma competição da Comebol. Aí, a entidade sul-americana, obrigará a equipe a jogar o feminino — que é uma das idéias da Fifa, para incentivar a modalidade.

Quanto ao São Paulo a decepção é um pouco maior: o time tem história, teve um esquadrão, que foi comandado pelo inesquecível Zé Duarte — o mesmo que levou a Ponte Preta à disputa da final paulista contra o Corinthians em 1977, quando Basílio fez o gol que acabou com a maldição alvinegra. No time feminino do seu Zé jogavam duas atacantes fenomenais: Sissi e Kátia Cilene.

Pois bem, por que se esperava que o tricolor fosse aceitar o convite, que veio com uma desistência de quatro equipes que estavam escolhidas inicialmente?

Ora, porque o doutor Marco Aurélio Cunha era um dos responsáveis pela seleção brasileira feminina em toda a preparação para os Jogos Olímpicos. Brigou feito leão pelas meninas. E só deixou momentaneamente o cargo após a Olimpíada para ajudar a salvar o São Paulo (masculino) a não cair para a segunda divisão do futebol nacional. Agora, ele deve voltar a ocupar o cargo na CBF, deve voltar a ser um dos homens fortes do jogo das mulheres. O gozado é que nem sendo forte dentro do São Paulo levou a equipe feminina a ocupar a vaga a que tinha direito no campeonato brasileiro.

A Ponte Preta já confirmou a participação — o que agrega qualidade e importância ao campeonato das mulheres, que será jogado de 12 de março a 9 de agosto.

Ainda se espera a resposta do Grêmio de Porto Alegre.

E por motivos mais que justificados, a Chapecoense resolveu apenas montar um time para disputar o campeonato catarinense, abrindo mão do campeonato brasileiro.

Já o São Paulo disse não mesmo.

Uma pena, ia ser um campeonato dos bons!

E as meninas mereciam isso.


Handebol: BR ganha e Tchê joga pra cachorro!
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Roberto Salim

Camila: com as amigas e com o cachorro vestido de Tchê!

Camila: com as amigas e com o cachorro vestido de Tchê!

O jogo estava ficando difícil no fim do primeiro tempo, quando o pivô Tchê recebeu a bola no meio da defesa polonesa. Livrou-se dos marcadores e finalizou para o gol. Era a demonstração de que o Campeonato Mundial estava começando neste sábado para o Brasil, depois de uma estréia desastrosa contra os franceses, donos da casa e de um time quase imbatível. A quilômetros de distância, em um apartamento na capital paulista, a esposa de Tchê vibrava a seu estilo, ao lado de amigas e do cachorro Kiron, estrategicamente vestido com a camisa 17 de seu marido. Camila torcia de maneira silenciosa, sentindo que dificilmente os brasileiros não venceriam a partida disputada em Nantes.

“O gol foi do jeito que ele gosta, com os caras pendurados no pescoço dele, tentando impedir a finalização… é assim que ele gosta de marcar”, contou Camila Albuquerque Gomes, ex-jogadora de pólo-aquático, goleira da seleção nacional, do Pinheiros e do Paulistano. “Vibrei com o gol, mas do meu jeito, contida, porque eu fico muito nervosa. Nessas horas, eu fico besta!”

Sim, porque era um momento importante da partida.

Depois de um início arrasador, em que o Brasil chegou a abrir 5 a 0 e 7 a 1, a Polônia foi se aproximando no placar. Até que nos instantes finais do primeiro tempo, parecia que a diferença cairia perigosamente. Foi quando o goleiro Maik fez defesas incríveis e Tchê, o pivô camisa 17,  fez o gol que acalmou a tropa: 16 a 11.

Tinha ainda o segundo tempo.

“Vamos torcer, mas já é um jogo muito diferente da estréia contra a França, quando o time sentiu a falta do Thiagus… também é um time muito jovem”, analisou Camila, que começou o namoro com o gaúcho Alex Pozzer, o Tchê, quando os dois eram atletas do Pinheiros. “Eu jogava pólo e ele era da equipe de handebol. Passávamos o dia todo no clube, pois eu sou de Santos e ele de Caxias. Estamos juntos há 8 anos e casamos quando ele foi contratado para jogar na Espanha em 2013”.

Na Europa, na cidade de Guadalajara – a 40 km de Madri – Camila começou a jogar também handebol, como pivô, apesar de ter somente 1,73 m de altura. Depois, eles mudaram para outro clube e ela deixou o esporte. No mês de julho, eles vão se transferir para a França, para Dunkerke.

“Quem sabe eu volte a jogar pólo ou handebol mesmo”, diz Camila que tem apenas 25 anos e muita vontade de competir.

Por enquanto, o que conta é que o Brasil ganhou da Polônia por 28 a 24, com muita luta e mais 3 gols de Tchê, marido da Camila.

“Foi muita disputa e muita marcação do Tchê, não é?”

O próximo adversário é o Japão, jogo que pode decidir a classificação brasileira no grupo A, para a próxima fase do mundial.

Camila garante que não é supersticiosa, mas contra os japoneses, o cachorro Kiron vai estar devidamente uniformizado diante da televisão!

 


Família do handebol aguenta firme o massacre francês
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Roberto Salim

Quando o jovem treinador Washington Nunes chegou à igreja atrasado para o seu casamento, escutou da noiva Cláudia: ''Quanto foi o jogo?''. É que ele tinha acabado de participar de uma decisão do campeonato paulista de handebol marcada justamente para o dia do casório. E Cláudia só não tinha ido assistir à partida, porque tinha de se preparar para a solenidade. A família Nunes tem história no handebol brasileiro.

''Nosso primeiro filho, o Pedro, já ia às quadras desde os três meses de idade'', conta Cláudia, que foi armadora central da equipe de Guarulhos e chegou à seleção paulista. Pedro chegou à seleção brasileira. João, o segundo filho, jogou só um pouco. E o pai Washington tem o handebol no sangue. Por isso chegou merecidamente ao cargo de técnico da seleção brasileira masculina e foi confiante para a Europa neste começo de 2017, com uma equipe renovada para a disputa do Campeonato Mundial. E a estréia foi com uma França arrasadora, empurrada por 17 mil torcedores, mais o presidente François Hollande e com um goleiro de 40 anos, que pega até pensamento.

''Todos nós sabíamos que seria difícil uma vitória, mas…'', admite o filho Pedro, que levou o pai ao aeroporto, onde ouviu que ele estava confiante numa boa participação brasileira no torneio.

''Confiante, mas muito ansioso pela estréia''.

Pedro e seu irmão João puseram a camisa do Brasil, sentaram no sofá com mais dois amigos torcedores e se aprontaram para a disputa de quarta-feira. Mamãe Cláudia que, há dez anos, se separou de Washington também acompanhou o jogo a seu modo, recebendo mensagens dos filhos.

''Eu sou mais pé no chão. O handebol brasileiro teve evolução, mas não adianta achar que sem investimento na base nós vamos conseguir ir muito mais longe do que já conseguimos''.

Quando a partida começou logo ficou evidente que Cláudia tinha razão em seu comentário.

Os franceses atropelavam os brasileiros com uma facilidade incrível.

''Meus filhos falam que eu sou pessimista, mas não é isso: sou realista''.

E a realidade mostrava um ataque fulminante dos franceses e quando o Brasil finalizava aparecia a figura magistral do goleiro Thierry Omeyer, o Titi dos franceses, considerado o maior goleiro de todos os tempos.

O primeiro tempo terminou 17 a 7.

''Foi um pouco decepcionante, porque na Olimpíada no Rio o nosso time encarou os franceses quase até o fim. Mas lá dentro, na casa deles, com a renovação de nossa equipe as coisas ficaram muito difíceis'', relembra Pedro, que mandou uma mensagem para a mãe bem no intervalo.

''As coisas estão feias…''

Cláudia reconhece que o placar foi decepcionante.

''O Washington aprendeu muito com o técnico espanhol Jordi Ribera, que foi o técnico do Brasil até a Olimpíada do Rio… mas temos de incentivar a base, algo que vai dar frutos quando o Centro de Treinamento de São Bernardo começar a funcionar com vistas à formação de jogadores. O diretor vai ser o Washington e vai dar certo, vocês vão ver''.

No segundo tempo, deu mais França ainda: 31 a 16.

''No fim do jogo falei com meu pai que estava muito chateado'', confessa Pedro.

E Washington respondeu ao filho:

''Eu esperava um desempenho um pouco melhor''.

A conversa seguiu com palavras de incentivo do filho.

''Pai, o campeonato vai começar de verdade no sábado, contra a Polônia''.

Então é isso, neste sábado o time do Washington Nunes enfrenta os poloneses em Nantes.

Outra parada dura.

Mas nada que assuste o Washington que um dia, numa entrevista, fez questão de dizer:

''O handebol por vezes se mistura com minha própria vida!''

 


Muitos técnicos em um Bernardinho só
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Roberto Salim

Com certeza foi entre 1974 e 1980. Só não me recordo direito onde eu trabalhava. Lembro que fui até a casa do Paulo Sevciuc, o Paulo Russo, para fazer uma reportagem sobre a seleção brasileira de vôlei. Ele era o técnico da seleção e tinha um caderninho vermelho. Paulo me mostrou tudo o que tinha anotado dos jogos que viu de futuros adversários em uma viagem pelo mundo. Aliás, o planeta era mais lento, as anotações mais ralas, as observações tinham mais de intuição do que de número – estatística.

Lembro também do Antônio Carlos Moreno, não como técnico. Mas como jogador, também da camisa amarela, que ele vestiu por 366 vezes. Moreno jogou 4 olimpíadas. Era uma referência.

Foi o início de uma era.

Ele era referência da nossa equipe.

Aliás, o Brasil tinha uma boa equipe. Só não tinha ainda o reconhecimento internacional.

Acreditem, em 1976 cobri uma final de campeonato brasileiro entre Botafogo e Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte. O Nuzman era jogador. Diziam que seria um bom dirigente esportivo. O tempo provou que não.

Mas enfim, tudo é vôlei.

Tudo em um tempo mais lento. Mais leve.

Teve a fase do José Carlos Brunoro, quando o vôlei masculino começou a se destacar para valer. Indo para as telas da TV, mostrando seus primeiros ídolos.

E em 1992 eu estava no Palau Saint Jordi cobrindo a final olímpica entre Brasil e Holanda, pelo SBT. Lembro da festa que foi feita na quadra para a seleção de Zé Roberto Guimarães. Lembro também de jogadores subindo pelas arquibancadas para abraçar o Bebeto de Freitas, que tinha sido o técnico anterior.

Todos campeões. Todos festejando.

O vôlei masculino cresceu com seus técnicos e chegou ao auge com Bernardinho. Dezesseis anos no comando da equipe. Um adorado bicampeão olímpico.

Agora, ele deixa o cargo.

Falei de todos os treinadores que me lembro, porque Bernardinho com suas conquistas é um pouco de cada um deles. É Bebeto, é Brunoro, é Zé Roberto, é Paulo Russo. É o vôlei brasileiro com seus acertos e erros.

Não existe um Bernardinho só. São vários, ele incorporou toda a turma com quem jogou, com quem aprendeu. E sabe-se lá quem mais foi incorporado em sua mente de líder campeão.

Como Paulo Russo, agora Bernardinho é história.

Chega a oportunidade de Renan Dal Zotto, um dos ídolos da “Geração de Prata”, de 1984.

Ele tem a missão de ser o técnico da vez.

Será que ele também tem um caderninho vermelho ou tudo está nas telas dos computadores?

Cada época com suas tecnologias de ponta.

A diferença está na mente, no caráter, na competência e na liderança de quem comanda.

Na obstinação. Na paixão pelo vôlei.

Boa sorte Renan!